“Olhe nos meus olhos, eu disse nos meus olhos.”
Há frases que pedem atenção. Esta exige presença.

Tatiana Rolim
Em preto e branco, uma mulher cadeirante aparece de vestido curto. A sensualidade está ali, inteira, sem excesso e sem desculpas. Pele, pernas, curvas, postura. Nada na imagem pede piedade. Nada oferece uma explicação. Ela simplesmente ocupa o próprio corpo, desejo e a própria beleza.
Talvez seja justamente isso que ainda cause estranhamento.
Durante muito tempo, a deficiência entrou na fotografia acompanhada de uma legenda invisível: superação, coragem, limitação ou inspiração. Como se aquele corpo precisasse primeiro justificar sua existência para depois merecer ser admirado.
Mas quem ensinou a gente a pensar assim?
A deficiência nunca esteve do lado oposto da beleza. O que existe é uma ideia estreita demais sobre aquilo que aprendemos a chamar de belo.
A cadeira de rodas está ali. Não precisa desaparecer para que a mulher apareça. Faz parte dela, daquela história, do enquadramento. Mas não decide o que os olhos encontram.
Porque existe uma diferença entre enxergar alguém e reconhecê-lo.
Reconhecer é perceber que ali também moram vaidade, desejo, elegância, intimidade, fé, insegurança e escolha. Tudo aquilo que se perde quando uma pessoa é reduzida a uma única característica.
“Olhe nos meus olhos.”
Não procure uma lição e nem heroísmo. Apenas olhe.
Talvez a fotografia esteja fazendo algo mais profundo do que incluir um corpo durante tanto tempo afastado dos padrões que organizaram o imaginário da beleza. Talvez esteja devolvendo ao espectador uma pergunta que ele não esperava receber:
Por que foi preciso esperar tanto para que esse corpo pudesse simplesmente ser reconhecido?
A beleza não precisa de autorização. E não possui uma única arquitetura física.
Há fotografias que terminam quando a luz se apaga. Outras continuam depois, trabalhando dentro de quem as viu. Encontram novas paredes, páginas, conversas, pessoas. E, às vezes, abrem espaço para que outras imagens existam.
Mas isso vem depois.
Antes de qualquer projeto, antes de qualquer discurso, existe uma mulher diante de uma câmera.
E ela não está pedindo para ser o centro das atenções. Ela pede respeito e faz um convite: OLHE!
Talvez a questão nunca tenha sido descobrir se ela é bonita. Temos que questionar o motivo da demora em reconhecer o que sempre existiu como beleza plural.

Trabalho sensacional, parabéns. Que seja um artigo para ajudar na evolução humana.
Que texto necessário e potente! 👏♿❤️
Como mulher com deficiência, esse texto me toca profundamente. Por muito tempo, nossos corpos foram vistos apenas pela deficiência, pela cadeira de rodas ou pela ideia de “superação”. Esquecem que somos mulheres, com vaidade, desejos, sonhos, sensualidade, beleza e liberdade para escolher como queremos ser vistas.
A cadeira de rodas não apaga a nossa feminilidade, a nossa beleza e muito menos a nossa identidade.
Precisamos deixar de olhar para a deficiência e começar a olhar para a pessoa.
“Olhe nos meus olhos” é mais do que um pedido. É um convite para enxergar além dos estereótipos, do capacitismo e dos padrões impostos pela sociedade.
Não queremos piedade. Queremos respeito, reconhecimento e o direito de simplesmente existir, ocupar espaços e sermos quem somos.
Parabéns pelo texto! Precisamos cada vez mais de vozes que mostrem que a beleza também é plural, diversa e acessível a todos os corpos. ❤️♿
Eu conheço Tatiana, ficou muito bom.
Beleza plural e vi um olhar de uma mulher poderosa e que sempre soube sobre si mesma. Que ensaio, parabéns Kica! Bjs Cristiane
Parabéns pela performance. A Tatiana é ótima profissionalmente e sempre antenada com os olhares da inclusão