Relatório da PF revela série de encontros entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro

Colunista

Rodrigo Franco

Mensagens encontradas no celular do banqueiro indicam contatos e reuniões ao longo de 2024 e 2025 e ampliam a pressão sobre o ministro do STF

Um relatório da Polícia Federal (PF) colocou novamente o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), no centro das investigações relacionadas ao Banco Master. O documento, produzido a partir de dados extraídos do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, registra uma série de contatos e encontros entre os dois ao longo de 2024 e 2025.

O conteúdo veio a público depois que o ministro André Mendonça determinou o levantamento do sigilo de parte da investigação que apura as relações de Vorcaro com autoridades e os desdobramentos envolvendo o Banco Master. O relatório policial reúne mensagens, registros e informações obtidas durante a apreensão do aparelho do empresário.

Encontros registrados pela investigação

Segundo as informações reunidas pela PF, Moraes e Vorcaro mantiveram contato presencial em diferentes ocasiões. Registros encontrados no telefone do banqueiro indicam pelo menos seis encontros entre os dois.

O primeiro encontro identificado teria ocorrido em fevereiro de 2024, na residência do ex-ministro das Comunicações Fábio Faria. Outros contatos teriam acontecido posteriormente, inclusive em ambientes privados. As mensagens analisadas pelos investigadores também fazem referência a encontros que se prolongaram até horários avançados e a uma possível presença dos dois em Campos do Jordão durante um feriado.

Fábio Faria aparece nas investigações como uma das pessoas que ajudaram a aproximar Vorcaro e Moraes. Em mensagens, o ex-ministro teria intermediado contatos e organizado encontros envolvendo o banqueiro e o ministro.

Mensagens aumentam questionamentos

Além dos encontros, o relatório da PF aponta mensagens de Vorcaro dirigidas a Moraes em um período especialmente sensível para o empresário.

Em novembro de 2025, pouco antes de ser preso, Vorcaro teria enviado mensagens nas quais demonstrava preocupação com o avanço das investigações e perguntava sobre possíveis medidas contra ele e contra o Banco Master.

Em determinado momento, o banqueiro teria pedido que Moraes tentasse intermediar contatos com o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e com o procurador-geral da República, Paulo Gonet. Uma das mensagens mencionava a possibilidade de atrasar uma operação policial.

Em outro registro, Vorcaro afirmou ter uma dívida de gratidão com Moraes e sua família. A PF, entretanto, não conseguiu recuperar as respostas enviadas pelo ministro porque Vorcaro utilizava um procedimento que envolvia escrever mensagens no aplicativo de notas, fazer capturas de tela e enviá-las pelo WhatsApp como imagens de visualização única.

Relação com escritório da esposa de Moraes

O relatório também menciona a relação profissional entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro.

Segundo os investigadores, uma minuta de contrato foi encaminhada ao banqueiro em janeiro de 2024. Metadados do documento apontaram posteriormente uma edição atribuída ao perfil “Ministro Alexandre de Moraes”.

O escritório da advogada confirmou que Moraes teve acesso ao documento, mas afirmou que o ministro foi consultado apenas para verificar, junto ao setor de compliance, eventual impedimento legal relacionado à contratação.

Posteriormente, o contrato entre o escritório e o Banco Master passou a integrar o conjunto de informações analisadas no caso. O episódio ganhou ainda mais repercussão diante das mensagens e dos encontros revelados pela investigação.

Jatinho também aparece nas mensagens

Outro elemento que veio à tona envolve a empresa Prime You, ligada ao Banco Master, e o uso de uma aeronave.

Mensagens obtidas pela PF mostram Viviane Barci de Moraes em contato com funcionários da empresa. Em uma das conversas, ela teria afirmado que estava gostando muito de utilizar um jato Legacy 650.

Após a divulgação das mensagens, o escritório Barci de Moraes afirmou que o contrato relacionado à aeronave não chegou a ser concretizado.

Investigação provoca tensão dentro do STF

A divulgação do relatório ocorre em meio a uma crescente tensão dentro do próprio Supremo Tribunal Federal.

André Mendonça, relator do caso relacionado ao Banco Master, determinou o levantamento do sigilo e solicitou manifestação da Procuradoria-Geral da República sobre determinados elementos encontrados pela PF. O material envolve não apenas Moraes, mas também referências ao procurador-geral Paulo Gonet e ao diretor-geral da Polícia Federal.

O episódio provocou forte reação política. Parlamentares passaram a defender novas investigações e até medidas contra Moraes. O deputado Marcel van Hattem, por exemplo, anunciou a intenção de apresentar novo pedido de impeachment contra o ministro.

O que está comprovado e o que ainda precisa ser esclarecido

A existência dos registros e das mensagens encontradas no celular de Vorcaro faz parte do material produzido pela Polícia Federal. Também há registros que apontam para encontros presenciais entre o banqueiro e Moraes.

Isso, porém, não significa automaticamente que tenha sido comprovado qualquer crime ou favorecimento ilegal por parte do ministro.

Uma das principais questões em discussão é justamente o conteúdo e o contexto das conversas, já que as respostas de Moraes não foram recuperadas em diversos casos. Assim, parte relevante da interpretação sobre as mensagens depende do conteúdo produzido por Vorcaro e dos demais elementos reunidos pelos investigadores.

O caso, portanto, ainda deverá passar por análise das autoridades competentes.

Caso amplia crise de confiança

As revelações colocam o Supremo diante de uma situação politicamente delicada. A proximidade entre um ministro da Corte e um empresário investigado, somada a contratos envolvendo o escritório da esposa do magistrado e a mensagens nas quais o banqueiro aparentemente buscava auxílio diante do avanço das investigações, alimenta questionamentos sobre possíveis conflitos de interesse e sobre os limites das relações entre autoridades públicas e pessoas sob investigação.

O desdobramento do caso dependerá agora da análise integral do relatório, das manifestações da PGR e das decisões que serão tomadas por André Mendonça.

Mais do que os encontros em si, o ponto central da investigação será determinar se houve alguma atuação concreta de autoridades em benefício de Vorcaro ou do Banco Master e se as relações registradas possuem alguma consequência jurídica.

Até que essas questões sejam definitivamente esclarecidas, as informações reveladas pela PF permanecem como elementos de uma investigação em andamento, e não como uma condenação ou comprovação definitiva de irregularidades.

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