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Quando a divergência deixa de ser diálogo e se transforma em disputa de ego.
Existe uma espécie de arrogância que não levanta a
voz, mas faz estrago. Ela aparece quando alguém escuta uma opinião diferente e,
antes mesmo de compreendê-la, já se prepara para desqualificar quem a
expressou. Não quer entender, acha que precisa corrigir, vencer, enquadrar.
Como se a própria inteligência dependesse da derrota alheia.
Vivemos um tempo curioso: todos reivindicam o
direito de falar, poucos parecem dispostos a suportar o que não gostariam de
ouvir. A liberdade de expressão é celebrada até o instante em que o outro abre
a boca e diz algo que contraria nossas certezas. Nesse momento o discurso sobre
respeito, geralmente costuma perder a elegância.
Opinião não é certificado de superioridade. Pensar
diferente não torna ninguém mais inteligente, mais evoluído ou mais digno. E
pensar igual também não transforma um grupo em dono da verdade. São muitas
pessoas reunidas em torno das mesmas ideias sem que isso, por si só, torne
essas ideias melhores.
Cada um observa a vida a partir do lugar que ocupou
nela. Há dores que mudam convicções, experiências que derrubam certezas e
encontros que nos fazem rever julgamentos antigos. Quem nunca precisou mudar de
ideia talvez não tenha encontrado argumentos suficientemente bons ou
simplesmente tenha feito das próprias convicções uma prisão confortável.
Respeitar o outro não significa aplaudir tudo o que
ele diz. Significa ter maturidade para discordar sem transformar a divergência
em ofensa pessoal. Há ideias que merecem contestação, comportamentos que
precisam ser questionados e discursos que não podem ser protegidos sob o
pretexto de liberdade. O que não se justifica é usar a discordância como
licença para humilhar. E há uma pergunta incômoda: se você só respeita quem
concorda com você, está defendendo o respeito ou apenas exigindo aprovação?
A convivência não exige que abandonemos nossas
convicções. Exige que deixemos de imaginar que elas nos autorizam a diminuir
alguém. Não precisamos sair de todas as conversas convencidos pelo outro. Mas
seria razoável sair delas sem ter perdido a capacidade de reconhecê-lo como
pessoa.
No fundo, a intolerância intelectual tem uma
vaidade peculiar: precisa que o outro esteja errado para se sentir certa. Talvez
a verdadeira medida de uma convicção não esteja na força com que a defendemos,
mas na serenidade com que ela suporta ser questionada. Porque quem precisa
calar o outro para sustentar a própria razão pode até dominar uma discussão. O
que não consegue provar, com isso, é que tem razão.
Este artigo integra a coluna Viver Eficiente
e não pode ser reproduzido, parcial ou integralmente, sem autorização expressa
da autora ou do portal de notícias Atitude New.
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