O Pote das Coisas Bonitas

Colunista

Kica de Castro

Para tudo aquilo que o espelho esqueceu de contar.

O pote ficava na última prateleira do armário do banheiro, atrás do antisséptico bucal e de uma caixa de curativos vencidos.

Era um vidro comum, desses que sobrevivem à cozinha depois que a geleia acaba. Tinha sido de jabuticaba. Agora, carregava uma etiqueta escrita à mão, com a tinta já desbotada pelo vapor dos banhos. Não havia creme ali dentro. Nem máscara facial ou qualquer dessas promessas que chegam em frascos pequenos e custam como se a juventude viesse em prestações.

Havia papéis. Tudo começou numa quarta-feira cinzenta de primavera.

Ela estava diante do espelho, ainda sem café, quando o telefone lhe ofereceu a primeira imperfeição do dia. Depois outra. E mais uma. O algoritmo parecia conhecer intimamente aquilo que ela deveria corrigir: uma marca sob os olhos, uma pele menos firme, uma linha perto da boca.

Foi então que teve uma ideia quase infantil. Toda vez que encontrasse alguma coisa bonita em si, não a beleza fabricada para uma fotografia, mas aquela que aparecia sem pedir licença , escreveria num pedaço de papel e colocaria dentro do vidro.

O primeiro bilhete foi curto: “As bochechas vermelhas depois da caminhada no frio.”

Durante algum tempo, ela se esqueceu do combinado. Depois, começou a lembrar. Assim chegou ao sétimo bilhete, como forma de agradecimento: “Depois do acidente, deitada à espera da ambulância, ouvi um pássaro. Antes da sirene, antes das vozes, antes de saber o que havia acontecido comigo, aquele canto me encontrou. E eu agradeci pelo milagre de ainda escutar a vida.”

Vieram os cabelos desgrenhados de uma manhã em que, por alguma razão, pareciam bonitos daquele jeito. O contorno dos olhos depois de uma gargalhada com uma amiga que não via havia anos. As sardas que o sol de janeiro espalhou sobre o nariz. Uma pinta que nunca tinha gostado muito. O rosto cansado, certa noite, depois de ter conseguido terminar uma coisa difícil.

Cada descoberta cabia num papel. Em cada papel, numa dobra. A cada dobra, naquele vidro. Sem perceber, ela estava fazendo uma coleção de instantes que o espelho jamais saberia catalogar. Porque o espelho é um instrumento curioso: devolve a imagem, mas não devolve a história.

Não mostra o abraço que acabou de acontecer. Não registra a coragem de sair de casa num dia ruim. Não sabe que aquela ruga apareceu depois de anos sorrindo. Não entende cicatrizes. E nem sabe explicar como seguir em frente depois de uma mudança física.

O pote entendia, ou pelo menos, guardava.

Com o tempo, ficou cheio. Sacudia-se o vidro e ouvia-se um ruído delicado de pequenos papéis se tocando, quase uma chuva particular.

Numa manhã qualquer, ela abriu a porta do armário e resolveu tirar um. Desdobrou. A letra era sua, apressada, azul, um pouco torta: “O brilho nos olhos ao perceber que a cicatriz no joelho é lembrança de uma infância feliz.”

Ela ficou alguns segundos pensativa. Depois olhou para o espelho. Estava sem maquiagem. Tinha dormido pouco. As olheiras não colaboravam. Havia uma linha nova na testa, dessas que chegam sem avisar e ficam. Pela primeira vez, não procurou o que precisava ser consertado. Procurou o que já estava ali. Fechou o pote, recolocou-o na última prateleira e apagou a luz. A beleza, descobriu, não tinha desaparecido. Apenas nunca coubera inteira no espelho.

E talvez seja por isso que aquele velho vidro de geleia tenha se tornado, com o passar dos anos, o objeto mais precioso daquele banheiro. Ele não prometia juventude. Fazia algo mais raro: lembrava toda beleza que ela já tinha vivido.



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