A perigosa mania de salvar o outro

Colunista

Kica de Castro

Quando o cuidado deixa de escutar, pode começar a mandar.

Existe uma espécie de heroísmo doméstico que
raramente recebe esse nome. É o de quem passa a vida tentando salvar os outros.
Resolve problemas que não são seus, oferece conselhos antes de serem pedidos,
prevê desastres, organiza saídas. Faz tudo com a aparência impecável de quem
apenas se importa.

Mas existe uma pergunta inconveniente: e se a ajuda for apenas
uma forma socialmente aceita de controle?

A fronteira é delicada porque, muitas vezes, o
afeto é verdadeiro. A pessoa quer proteger. Poupar uma decepção. Evitar uma
escolha ruim. Só que querer o bem de alguém não concede o direito de decidir
por ela.

Nas famílias, nos casamentos, nas amizades e até
nos ambientes profissionais, a operação se repete. Alguém identifica um
potencial e passa a se relacionar não com a pessoa real, mas com aquela que
acredita que ela poderia se tornar. A partir daí, cada recusa parece
desperdício, cada erro vira provocação e cada tentativa de mudança frustrada
alimenta uma nova investida.

O salvador, então, corre um risco curioso:
começar a precisar daquilo que pretende resolver. Há uma satisfação perigosa em
ser indispensável. Ela pode disfarçar dependência, medo de perder espaço ou
dificuldade de aceitar que o outro tenha uma vida que não obedeça às nossas
expectativas. Nem todo excesso de cuidado nasce do amor. Alguns nascem da
necessidade de ter razão.

A verdade é menos generosa: ninguém consegue querer
por outra pessoa.
Pode-se oferecer uma mão. Não se pode obrigar
alguém a segurá-la. Podemos alertar sobre o precipício. Não se pode viver
eternamente à beira dele em nome de quem decidiu caminhar por outro lado.

Recuar também é uma forma de afeto. Não a
desistência ressentida de quem cobra resultados pelo que fez, mas o
reconhecimento de uma fronteira simples e frequentemente ignorada: a vida do
outro continua sendo do outro. Talvez uma das formas mais difíceis de amar seja
aceitar que alguém pode escolher errado sem nos dar a função de consertá-lo. Porque
há momentos em que estender a mão é generosidade. E há momentos em que soltá-la
é respeito.


“Eu sei que algumas pessoas querem me proteger porque enxergam dificuldades que fazem parte da minha rotina. Mas a minha deficiência não me retirou o direito de escolher, errar, mudar de ideia e aprender com as consequências. Quando alguém decide por mim em nome do meu bem, pode oferecer cuidado, mas também pode estar diminuindo a minha autonomia. Eu não preciso que vivam a minha vida no meu lugar. Preciso de pessoas que estejam ao meu lado, que respeitem minhas escolhas e que entendam que me ajudar não significa assumir o controle da minha história.” – Marta Fontes (38 anos – mulher com paraplegia) 

Obs.: Este conteúdo integra a coluna Viver Eficiente e não pode ser reproduzido, integral ou parcialmente, sem autorização prévia da autora e do portal de notícias Atitude New.

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