Pare de esperar que descubram o seu valor
Direitos precisam ser cobrados. Potência, porém, precisa ser exercida.
Há uma conversa incômoda que ainda falta no debate sobre deficiência.
É legítimo cobrar acessibilidade, respeito, oportunidades e representatividade. Isso é direito. Mas existe outra responsabilidade, menos confortável: não entregar a terceiros o governo da própria capacidade.
O mundo precisa mudar. A sua vida, porém, não pode ficar em suspensão até que essa mudança aconteça.
É justamente aqui que a conversa fica interessante.
Reconhecimento não deveria ser ponto de partida. Deveria ser consequência de algo que já está sendo desenvolvido. Quem sabe onde quer chegar entende que preparo não acontece diante do aplauso. Acontece quando ninguém está prestando atenção.
Há uma diferença enorme entre esperar uma oportunidade e estar pronto para ela.
Comunicação é parte desse preparo. Não basta possuir uma boa ideia; é preciso saber sustentá-la. A linguagem ganha força com leitura, repertório, prática e refinamento. Não existe atalho para aquilo que precisa amadurecer.
A fotografia também pode deslocar fronteiras.
Por muito tempo, a pessoa com deficiência foi fotografada pela observação da falta ou da superação. Os dois extremos são limitadores. Ela pode simplesmente ocupar a imagem como pessoa: com beleza, desejo, vaidade, estilo, inteligência e personalidade.
Isso não é detalhe estético. É cultura.
Quem decide como alguém é representado também participa da construção do imaginário coletivo.
Há ainda a fé, que para milhões de pessoas é fundamento, não ornamento. Colocar Deus no centro não significa esperar que o céu faça aquilo que cabe às mãos humanas. A Bíblia relaciona fé, sabedoria, trabalho e responsabilidade. Crer não elimina o empenho; dá direção a ele.
O mesmo cuidado vale para aquilo que alimentamos dentro da mente. Palavras repetidas ganham força. Pensamentos recorrentes podem ampliar horizontes ou estreitá-los. Não se trata de imaginar que desejar algo basta para obtê-lo. Trata-se de compreender que ninguém constrói uma realidade maior cultivando diariamente uma imagem menor de si.
Então talvez a pergunta decisiva seja outra.
Não “quem vai me dar uma oportunidade?” , mas, “O que estou fazendo com a capacidade que já tenho?”
Essa pergunta não absolve uma sociedade das barreiras que criou. Apenas impede que essas barreiras tenham a última palavra.
Porque há uma diferença entre esperar justiça e esperar que alguém viva por você.
A primeira é um direito. A segunda é uma escolha.
E talvez prosperidade comece exatamente quando essa diferença fica ressaltada: quando a fé deixa de ser espera, a capacidade encontra disciplina e o desejo ganha forma através da ação individual.
Reconhecimento pode chegar depois. O que não pode esperar até amanhã é a decisão de começar.

Texto e imagem: Kica de Castro
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Gostei desse texto, precisamos compartilhar com mais pcds.
Essa leitura me pegou de porrada.
Excelente texto Kica. Não adianta reclamarmos, falar sobre o capacitismo, se nós não fazemos por onde. Não adianta falar sobre a falta de acessibilidade, se não formos para os lugares que não tem acessibilidade. Não adianta falarmos sobre a discriminação, se nós mesmo nos excluímos.
Amei o texto! É um chacoalhão tanto para a sociedade sem deficiência quanto (é principalmente) para as pessoas com deficiência!
Kica! Sempre com conteudos relevantes. Adoro a Coluna!
Um texto sincero ,reflexivo e tocante que né conecta com a visão de RH e mercado de trabalho ,onde as pessoas efetivamente precisam destes recursos valorizando a capacidade que tem e não a que falta !!!
Bem colocad