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Talvez a violência mais antiga seja decidir quais mulheres merecem ser reconhecidas.
Agosto Lilás não deveria
nos lembrar apenas das mulheres que precisam ser protegidas da violência.
Deveria também nos obrigar a perguntar por que tantas ainda precisam lutar para
serem reconhecidas como mulheres.
Há violências que deixam marcas no corpo. Outras
atravessam a dignidade, a autonomia, o desejo, o trabalho e a possibilidade de
ocupar espaços onde alguns corpos continuam sendo considerados inadequados.
Para uma mulher com deficiência, essas camadas
podem se sobrepor. A violência física e sexual, a dependência imposta, a
infantilização, o controle sobre decisões pessoais e o capacitismo convivem com
outra forma de exclusão: a ideia de que seu corpo estaria fora do território da
beleza, da sensualidade e do desejo.
É uma violência cultural porque não acontece apenas
em atos individuais. Está também nas imagens que repetimos, nos corpos
escolhidos para representar a beleza e na ausência daqueles que continuam sendo
considerados exceção.
Ariete Angotti, mulher com nanismo, resume essa
ferida a partir da própria experiência: “A
deficiência nunca apagou a mulher que eu sou. E quando o mercado da moda fecha
portas para mulheres com deficiência, também está praticando uma forma de
violência.”

A frase desloca o debate. Não se trata apenas de
estar em uma fotografia, em uma passarela ou em uma campanha. Trata-se de ter
acesso às mesmas possibilidades de construir uma vida profissional e decidir
como o próprio corpo será apresentado ao mundo.
Teresa Souza, mulher negra e paraplégica, coloca a
questão em outro lugar: “A
liberdade de uma mulher não tem preço. Nenhuma deficiência, nenhuma cor de pele
e nenhuma condição podem diminuir o direito de ser respeitada.”
Talvez seja essa a pergunta que o Agosto Lilás
ainda nos deva: quantas formas de violência uma mulher precisa enfrentar antes
que a sociedade compreenda que respeito não pode ser condicionado?
A beleza também precisa sair desse tribunal.
Não existe um único corpo autorizado a ser
admirado. Existem corpos, histórias, desejos, idades, tonalidades de pele, formas
e maneiras de existir. A pluralidade não é concessão; é realidade.
Enquanto uma mulher com deficiência precisar provar
que é mulher antes de ser reconhecida em sua humanidade, alguma coisa
continuará profundamente errada.
Agosto passa. O lilás desaparece das vitrines. As
campanhas terminam.
Mas a pergunta permanece: quem ainda estamos deixando do lado de fora quando decidimos o que é uma
mulher bonita, livre e digna de respeito?
Uma boa reflexão para uma sociedade machista.
Quem ainda estamos deixando de fora por não caber no padrão ?Eu escolho romper padrões ,ocupar espaços e mostrar que beleza também é diversidade,deficiência potência e representatividade.
Acho que qualquer tipo de agressão não justifica absolutamente nada, e ainda mais violência com a mulher. Ótima matéria e um alerta para um mundo tão complicado e perdido.
Ter uma deficiência auditiva faz parte da minha história, mas não define quem eu sou.
Ao longo da minha caminhada, enfrentei desafios que muitas pessoas talvez nem percebam. Há momentos em que ouvir pode ser difícil, compreender uma conversa pode exigir mais atenção e algumas situações podem trazer insegurança ou até a sensação de não estar sendo compreendida.
Mas aprendi que uma dificuldade não precisa ser maior do que os nossos sonhos.
A deficiência auditiva me ensinou a ter ainda mais força, paciência e determinação. Aprendi a encontrar outras formas de me comunicar, de me expressar e, principalmente, de mostrar ao mundo tudo aquilo que sou capaz de fazer.
Hoje, através da arte e do artesanato, encontro uma maneira especial de transformar sentimentos em criatividade. Cada peça que faço carrega um pouco de mim, da minha dedicação, dos meus sonhos e da minha vontade de continuar crescendo.
Não quero ser vista apenas pela minha deficiência. Quero ser reconhecida pela mulher que sou, pelos meus talentos, pela minha criatividade, pela minha coragem e por tudo aquilo que ainda quero conquistar.
Minha deficiência auditiva faz parte da minha caminhada, mas não limita o tamanho dos meus sonhos.
kica você como sempre, retratando e colocando em evidência a vida real das mulheres com deficiência, parabéns
Concordo com esse artigo, muito bem apontado e denunciado as tantas outras violências sofridas pela mulher de forma geral, que transcende a física de maneira a aniquilar o emocional e psicológico, causando transtornos pelo não enquadramento aos padrões criados e impostos por uma sociedade extremamente desempática e cruel.
Excelente matéria