Noticias de ultima hora

Comoção

Segundo o dicionário online, dicio.com.br, comoção é um substantivo feminino que tem vários significados entre eles o figurado: Emoção contundente e imprevista, a etimologia da palavra é do latim commotio.

É fato que algumas coisas acontecem com a população mundial que causa comoção, de forma que em algumas circunstâncias é impossível não falarmos dessas coisas, mas hoje quero falar com vocês de forma que vamos analisar alguns fatos que são impossíveis de não ser comentado, mas ao fazermos uma análise mais profunda nos perguntamos porquê algumas nos comove ou mexe mais intimamente conosco.

Ano de 2001, mês de setembro dia 10, o prefeito de Campinas, Antônio da Costa Santos, o Toninho do PT, voltava para sua casa, após sair da academia quando seu carro foi fechado e abordado por um outro carro que efetuou alguns disparos contra o carro do prefeito, que preferia não utilizar a escolta da Guarda Municipal, um dos tiros acertou o lado do tórax do prefeito e o projetil perfurou sua aorta, matando-o imediatamente, o Toninho do PT, era um homem integro, honesto e muito dedicado a cidade, estava fazendo um combate claro ao narcotráfico e suas influências na prefeitura, combatia um cartel de empresas que detinham algumas licitações e estava revisando diversos contratos, para seu azar, sua morte ocorreu por volta das 22 horas, mas na manhã seguinte, infelizmente por volta das dez da manhã, no horário de Brasília, as Torres Gêmeas e o Pentágono, foram atacados nos EUA, pelas forças de Bin Laden, eu me recordo bem, estava de férias e curtindo um café da manhã em uma padaria, lendo o jornal com as notícias do assassinato do prefeito, quando a televisão nacional parou para mostrar aquelas cenas terríveis, dos aviões se chocando contra as paredes dos edifícios, mesmo com uma certa proximidade com o prefeito e estava contando com esta administração e, também acreditava no nosso prefeito, mesmo tendo passado um tempo em outras cidades sempre votei em Campinas, mesmo com toda a minha atenção voltada aos acontecimentos da minha cidade, minha atenção foi voltada imediatamente as Torres Gêmeas, sim acompanhei o enterro do prefeito, mas toda nossa atenção foi voltada para tudo que se falava do atentado terrorista, claro mais de 3.000 pessoas perderam suas vidas, inclusive, alguns corpos jamais foram encontrados isto é uma desgraça, sem dúvidas, mas tínhamos nossa desgraça pessoal, nosso prefeito havia sido assassinado, Nova York esta a 7.598 km de Campinas, claro que todos teriam que se solidarizar, mas a morte de Toninho simplesmente foi abafada, engolida, pela tragédia de Nova York, inclusive os reais assassinos até hoje agradecem a Deus por Bin Laden ter autorizado estes ataques, uma coincidência feliz, para todos aqueles que estavam envolvidos na morte do prefeito.

Esta morte foi tão traumática como a morte do prefeito Celso Daniel, pelo fato do assassinato, de ambos os prefeitos, claro que do Celso houve um sequestro, mas era a morte, que as coberturas foram muito distintas, a primeira sufocada pelo ataque terrorista em NY e a segunda com ampla cobertura midiática.

Foram claras as diferenças com um espaço de tempo tão pequeno, em 18 de janeiro de 2002 Celso foi morto quatro meses depois, mas a repercussão de um caso para o outro, foram muito diferentes uma da outra.

Agora pulamos para 2020, no dia 25 de novembro, na cidade de Taguaí, um ônibus colidiu com um caminhão, matando 41 pessoas, trabalhadores de uma indústria têxtil, o ônibus levava cerca de 50 pessoas, 90% morreram, moradores da mesma cidade, trabalhadores da mesma empresa, um caso de comoção nacional, mas…

Dia 26/11/2020 morre Diego Armando Maradona, já falei sobre ele, não vou me delongar nessa história, mas a morte de Maradona, simplesmente anulou toda a cobertura da tragédia de Taguaí.

Não vou falar aqui que a morte de um gênio como Maradona, não deva ter a cobertura que teve, mas quis falar aqui de dois casos semelhantes e inversos, a primeira a morte de um brasileiro, com certa relevância e a morte de vários anônimos nos EUA, que uma coisa cobriu a outra, a segunda é a morte de estrangeiro muito famoso e querido, com a morte de diversos brasileiros anônimos, não, não vou falar aqui do Complexo de Vira Lata, não é este o tópico, mas a compreensão da comoção não é nem de quem morre, mas sim de como esta notícia é levada ao ouvinte/leitor/internauta!

Temos que levar em consideração que muitas das notícias são levadas a um patamar maior ou menor, depende da mídia que leva a notícia, muito mais do que a comoção da notícia.

A morte destes trabalhadores, poderia suscitar uma discussão muito relevante do transporte de trabalhadores destas pequenas cidades para estas indústrias sediadas também em pequenas cidades, não consigo pensar que tal notícia se fosse em uma cidade de um milhão de habitantes como a minha ou grandes centros, ou mesmo capitais, em uma situação como esta, tal acidente seria totalmente diferente, mas onde fica Taguaí?

Qual era a empresa de jeans? Qual era a empresa de ônibus? Quem são os trabalhadores?

É evidente que a gente sente estas mortes, mas falar delas, dos traumas dos sobreviventes, da desgraça que recai nas costas do motorista de ônibus que incrivelmente sobreviveu e vivera com estas 41 mortes em suas costas.

Na verdade, eu não tenho resposta pra nenhuma destas perguntas, nem sei como estaria se Maradona não tivesse morrido um dia depois, pois lá em Mariana e Brumadinho, nenhum famoso morreu na época e hoje o quanto falamos ou lembramos?

Mas contínuo sem ter nenhuma resposta, como avaliar as comoções de uma população?

Devemos nós ser menos manipulados pelas notícias, devemos sim saber que algumas coisas devem ter mais repercussão do que outras, mas nós devemos sim controlar estas notícias e guiar este país a um país que se preocupa com os seus.

Nada contra se comover com as mortes de outros países, mas como levar a sério um país que nem se comove com a morte dos seus cidadãos?

Contínuo sem saber, mas eu não vou deixar de me comover.

Fé no Brasil

Léo Godinho